O problema de moradia desde os primeiros instantes em São Paulo

Dentro de uma das ocupações da FLM, Carmen lembra os momentos que a levaram até a luta

O sonho da selva de pedra. Este desejo por viver e ganhar dinheiro em São Paulo motivou Carmen da Silva Ferreira a viajar de Salvador, onde morava desde criança, para a cidade que se tornava cada vez mais próspera e populosa no País. Aos 53 anos, ela é uma das líderes do MSTC (Movimento dos Sem-Teto do Centro), com algumas lideranças ligadas à FLM, e um dos principais movimentos por moradia na capital. Ela lembra das ocupações e dificuldades sofridas ao longo dessa jornada.

Ao chegar à cidade, a ilusão de trabalho e renda mais fáceis sumiram e deram lugar para o preconceito e a exclusão. Após algumas intempéries, como morar em abrigos e na rua, Carmen foi convidada para ir a uma reunião do movimento de moradia.  “A minha consciência despertou que não existia um problema só meu. Havia o de outras pessoas também. Quanto mais informações acumulasse, mais eu  poderia resgatar a minha vida que estava totalmente arrebentada e poderia ajudar os outros”.

Saiba mais sobre a ocupação na Avenida Rio Branco, 47

Passou muitas complicações com os filhos ao chegar na capital e se descobriu no movimento por moradia. Algumas experiências e reuniões dos grupos de luta foram essenciais no aprendizado da luta diária por habitação na cidade. “Na minha época de adaptação, eu ficava na rua e fui parar em um serviço social, em um albergue. Lá eu conheci uma companheira que me levou pra reunião de um grupo de base. Nessa época, ainda era autogestão, mutirão. Eu perguntava se ela acreditava que alguém ia fazer casa pra dar pra ninguém. E tanto ela me encheu o saco que eu fui a uma reunião”, comenta Carmen.

Em 1997, participou da ocupação do prédio da Avenida 9 de Julho, 584. Nessa época, começou a conhecer um pouco melhor a relação entre movimento social e moradia. A experiência que foi ganhando com as ocupações foram fortalecendo a luta e os ideais para realizar o trabalho junto aos moradores.

Rafael Rojas

Carmen em reunião com moradores da Rio Branco

Reintegrações

Protocolado e assinado por um juiz, o documento levado pelas mãos dos representantes do dono do prédio mudava a história das ocupações. Talvez pela iminência da data de saída ou pelo preparo para uma luta que exigia força e estratégia.

Carmen lembra todas as ocupações em um apanhado geral, pois tinham o mesmo foco e batalha. “Não sei se era época, mas toda reintegração que a gente sofria, não sei se era forma de castigo, era no frio”, lembra ao comentar que maioria das reintegrações foram feitas no período do inverno paulistano. Isto até parece coincidência, mas o frio e a luta eram uma coisa única na cabeça dos líderes das ocupações e, como conta Carmen, resistiram bravamente, apesar de algumas tentativas das forças policiais de dispersarem os moradores, como foi o caso da 9 de julho. “A polícia chegava dizendo que nós tínhamos que sair. Não possuíamos apoio de uma assistente social, nada. Quem chegava primeiro era a força policial”.

Em relação à organização do início das ocupações, mostra o lado mais preciso da balança, que querendo ou não, são os maiores responsáveis pela luta. Existem muitas mulheres em meio às lideranças dos movimentos de moradia e na hora de colocar em prática não seria diferente.

A batalha pela moradia digna no centro da cidade é o mote das ocupações e entrar nos prédios fica a cargo dos pais de família e jovens pela força e adrenalina do momento. “A responsabilidade é do maior de idade. É do pai de família que não aguenta mais pagar aluguel. No dia de pagamento de aluguel, ele deixou de comprar comida pro filho. Os jovens vão na adrenalina. Eu vou fazer, abrir a porta. Eles não têm medo, não. Chega a polícia e eles continuam lá”, relata Carmen, ao comentar como é o procedimento em algumas entradas nos prédios, após meses de análise e estudos.

O movimento se reúne para organizar a luta. “Quando pensamos em arquitetar uma luta, fazemos uma pesquisa antes. Não vamos por em risco a vida das famílias. Eu faço muita pesquisa de imóveis, eu ando muito pelo centro”, diz Carmen, relacionando a luta por moradia com o respeito ao uso de prédios. Quando não têm função social, eles já fazem parte do direito do cidadão.

 

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Uma resposta para “O problema de moradia desde os primeiros instantes em São Paulo

  1. obrigado Rafael pelo seu relato conseguiu traduzir um sentimento que muitos ignoram e trazduzem de uma forma marginalizada . a LUTA NÃO É FACIL . quem não luta ta morto .

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