Bem mais que um Natal

Com toda a família por aqui, a permanência na ocupação era apenas uma questão de maior convívio e participação

O que era pra ser apenas uma comemoração em família acabou se tornando a porta de entrada de Edgard Luna Alvarado na luta por moradia. O peruano, engenheiro de minas aposentado, não chegou ao País em busca de turismo ou trabalho, mas sim para visitar a família – residente no Edifício São Manuel (Rua Marconi, 138).

A luta pela moradia pode parecer muito violenta, com casos de repressão policial em algumas reintegrações e até nas ocupações. Porém, para Edgard esse é um dos problemas mais simples. Ao longo de seus 54 anos, já viveu um dos piores embates sociais de seu país, o terrorismo em busca das dinamites usadas nas minas.

Saiba mais sobre a ocupação na Rua Marconi, 138

Por convite de Welita, uma das lideranças da ocupação, Edgard deixou de ser um mero visitante para se tornar um dos moradores mais envolvidos nas discussões do prédio. “Vamos conhecendo o movimento. É difícil para a gente conviver com pessoas de diferentes culturas”, diz o estrangeiro que sentiu muita dificuldade no começo.

Era uma questão de não ser o estranho no ninho. Participar ativamente do movimento e ensinar um pouco da cozinha peruana são algumas ações que acabaram aproximando Edgard das conversas com os coordenadores.

Edgard vive há pouco tempo em ocupações, mas busca entender e lutar em conjunto (Créditos: Centro Ocupado)

Mesmo há pouco tempo no prédio, Edgard busca participar da luta (Créditos: Centro Ocupado)

As documentações, ainda não regulamentadas, são um problema para o peruano migrante que fez esquecer essa batalha para participar da ocupação na Rua Capitão Salomão. “Eu não queria participar, pois ainda estamos tirando as documentações. O que aconteceria comigo se o policial me pegasse? Mas o pessoal do movimento deu uma força pra gente e temos que colaborar. Esqueci o negócio e fiquei os dois dias, gostei muito”, comentou sobre a experiência do primeiro ato de ocupação que participou.

No início, tinha um pouco de temor em relação às ocupações. “Como que você vai pegar algo de outra pessoa? Porém tem muitas pessoas que necessitam morar, com muitos locais vazios e abandonados”, comenta Edgard relacionando a luta aos direitos à moradia. “No começo, não gostava tanto da luta, mas tenho muitos conhecimentos que podem ajudar. Quando faço algo, gosto de fazer legal. Além disso, não é somente pela gente”.

Uma das diferenças culturais que lembra enquanto morava no Peru é a educação. “Apesar de não haver trabalho no Peru, tem que fazer faculdade”, o que, segundo Edgard, acaba formando especialistas, mesmo sem muito campo de trabalho. Isso também pode auxiliar nas lutas sociais e na formação cultural dos jovens de lá.

Vivendo sob “cuidados”

A ocupação não é sua primeira impressão sobre os problemas de moradia no Brasil. Antes de chegar em São Paulo, foi morar no Rio, por um ano e comentou sobre a pobreza que viu mais de perto. “A gente queria alugar um apartamento bom. Os grandes problemas eram a burocracia. Conseguimos uma casa através da milícia, que tinha como única cláusula: ou você paga ou morre”, lembra Edgard sobre um dos grandes problemas sociais da capital do estado fluminense atualmente.

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