Em um quarto de hotel muda-se a vida

Um jovem paraibano sentado ao lado da cama nos conta que alguns de seus amigos não conhecem a vida na ocupação e são muito preconceituosos. O ocupante comenta que sofre muito preconceito por morar no Cambridge e conta um caso mais recente. “Falei a um amigo: moro na 9 de julho, no antigo Hotel Cambridge, na ocupação. O amigo me disse: han? Mora onde? Tu é doido sai dali. Israel replicou: saio nada, lá é tão bom de morar, vamos lá pra você ver como é. No final, meu amigo mudou de ideia e quase foi morar na ocupação”.

Centro Ocupado

Em meio a canos e no último quarto do corredor, vive Israel de Assis Almeida, jovem nordestino que veio para São Paulo em busca de melhorias na vida. Quando chegou à cidade, o paraibano começou a trabalhar como servente de pedreiro. Atualmente está desempregado e sem renda, e como não tinha como pagar o aluguel, que já estava muito caro, decidiu participar da luta pela moradia digna. “Estou feliz aqui e os moradores são ótimos”, comenta o jovem enquanto relembra a vida antes da nova moradia.

O jovem de 27 anos viveu de aluguel por um ano e seis meses e desde 2011 vive na ocupação na Avenida Nove de Julho, conhecida pelo nome do hotel que existia anteriormente no local, Cambridge. “O aluguel na pensão era muito caro. O rapaz que morava no meu quarto falou sobre a ocupação e pediu que viéssemos que teríamos nosso espaço”.

Conheça um pouco mais sobre a ocupação no Hotel Cambridge

O clima mudou. O CEP também. Israel sente muito a diferença da convivência entre a terra natal e São Paulo. “Aqui a gente tem um estilo de vida diferente. A minha mais diferente ainda, vida sofrida. Hoje em dia estou  conseguindo fazer o que quero”, comenta o jovem mostrando estar feliz com a situação e planejando o futuro.

Em relação à experiência, Israel busca aproveitar a ocupação e o movimento. “A intenção principal é conquistar a casa própria. Enquanto não conseguir, não vou parar”, responde quando questionado sobre a permanência no movimento caso ocorra a reintegração do imóvel.

A vida na Paraíba

Israel abre um sorriso e comemora a chance de viver em São Paulo e buscar novos trabalhos e mudar de vida. “Tem que ralar muito pra botar um troco no bolso”. Imagina que nunca voltará a viver na Paraíba. Apenas quer ir a passeio. “Uma vez meus pais brigaram comigo e falei que só voltava pra visita. Quando eu voltar pra casa dos meus pais, será só para passear”, relembra o jovem.

Israel tem mais um irmão, mas é quem cuida dos pais na Paraíba. “Se pudesse, não traria meus pais para morar na ocupação”, comenta ao ser indagado sobre viver perto da família ou morar com eles. “Talvez se fosse na minha casa própria. Trazer pra cá, pra minha mãe subir 14 lances de escada é ruim”.

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A ocupação

Tinha um pé atrás. Assim, o jovem paraibano define os primeiros momentos da ocupação. “Tinha medo por ver o que passava na TV, mas descobri que é muito bom aqui mesmo”, comenta ao lembrar seus primeiros momentos dentro da ocupação.

Israel também tem vontade de liderar alguma ocupação ou passar a experiência que acumula no movimento de moradia. “Tenho vontade de ser coordenador pra ajudar os moradores novos. Muita gente tem medo do movimento”. Outro temor dos moradores é a reintegração. O jovem diz que não se preocupa, pois há leis que devem ser cumpridas antes da ação policial. “Quando a polícia chegar, pode jogar todo mundo na rua. Posso perder minhas coisas. Não é assim não. Não pode ir pra rua e acabar com tudo”.

Sob o teto do preconceito

Tanto no trabalho, como entre amigos, Israel diz que já sofreu preconceito por morar na ocupação. “Já me chamaram de vândalo, bagunceiro, morador de rua. Eu disse: Eu não! Estou lá porque é muito bom morar. Só tem gente de bem, família”, diz o morador, reafirmando sua vontade de permanecer no movimento.

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