Pelos filhos e em várias moradias de SP

A baiana Débora foi expulsa de uma pensão por causa dos filhos

Um apartamento simples no primeiro andar do prédio abriga a família da coordenadora da ocupação na 7 de Abril, 176. Débora veio da Bahia contando com a sorte e a fé. Em São Paulo há dois anos, a extrema necessidade levou a mãe de dois filhos a procurar uma moradia e a encontrou na ocupação da Rua Marconi, local também coordenado pelo MMPT no centro da cidade. A luta não foi simples, mas envolve a preocupação com os filhos, aluguel irregular e invasões de prédios.

A líder da ocupação lembra os primeiros momentos pela “cidade grande”: “Eu vim da Bahia e meus filhos ficaram por lá. Depois de um mês que meu esposo veio a trabalho, eu vim”. Os três filhos ficaram sob o cuidado da avó e depois de quatro meses por São Paulo, Débora voltou e buscou os garotos.

Centro Ocupado

Ao chegar em sua cidade natal, sua enteada também queria seguir os passos do pai e ela resolveu trazê-la também. “Morava com meu marido em uma pensão em um quarto bem pequenininho. Pagávamos 700 reais de aluguel, fora água e luz. Conversei com a proprietária e ela falou que não aceitaria crianças. Cheguei e pedi um prazo pra ela. Quero meus filhos, pois eles tão passando muita dificuldade lá. Um deles estava até sem ir pro colégio. Eu trago eles e você me dá mais uns dois três meses. Eu acho um lugar e vou”, lembra os momentos complicados no começo da moradia paulistana.

Débora falou que ia trazer dois filhos, mas trouxe a filha do esposo que estava sofrendo muito também. “Quando cheguei nesse quarto que eu morava com a filha do meu esposo, a dona começou a me olhar com outros olhos. Quando a minha filha ia tomar banho ela desligava a água. Dizendo que estava gastando água demais e eu pagando a conta. Meus filhos não podiam fazer zuada [brincar no local]. Chegou pra mim e falou que não ia dar mais dois meses não, ia me dar uma semana”, lembra a líder da ocupação na Rua Sete de Abril, 176.

Saiba mais sobre a ocupação na Rua 7 de Abril, 176

Logo depois de sair da pensão, buscava uma moradia no centro e tinha que procurar um lugar. A baiana Débora diz que as pessoas tinham receio de alugar um local para famílias com crianças. “Eu não achava e quando achava tinha uma plaquinha: não aceitamos crianças”.

Foi morar num prédio invadido, onde o pessoal dividia locais e havia muita droga e prostituição. Quando recebeu a ordem de reintegração do imóvel, decidiu vender o local onde vivia e pegar o dinheiro e ir pra outro lugar. “No outro dia, a mulher recorreu e ocupamos outro lugar. Vendemos o quarto por R$ 2 mil. A pessoa nem sabia. Estava necessitando. A pessoa deu mil e ficou de dar mil. No outro prédio ocupado aconteceu de novo. Botei a mão na cabeça: “vou ter que voltar pra Bahia”. Meu marido falou que ia dar um jeito”, diz Débora ao lembrar da mudança para outro prédio.

Débora tinha uma moradia na Bahia, só que por lá, a jovem diz não ter como conseguir emprego. “O que adianta ter emprego e não ter casa, ou vice-versa. Eu penso que tenho que conquistar minha moradia”, comenta a coordenadora sobre como está o quadro social na Bahia atualmente.

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Ocupações

A história nas ocupações começa no principal prédio ocupado pelo MMPT, na Rua Marconi, 130. “Uma amiga minha ia buscar comida na Sé e passava na frente da Marconi. Ela falou sobre o movimento onde há mais vida coletiva e regras. Eu e meu esposo nunca usamos droga, nem bebemos e nem fazíamos baderna, mas entrar até meia-noite. Lá na Bahia a porta fica aberta. Uma amiga minha falou que não tínhamos pra onde ir e decidimos ficar aqui.

Débora chegou à porta da ocupação quase chorando. Ela não tinha para onde ir com meus filhos. “A Marconi tinha um mês e  prédio ainda estava vazio. A Welita me falou que havia espaço no nono andar”, diz a coordenadora ao lembrar a mudança para o local.

O primeiro passo para chegar  à coordenação foi a cozinha. Débora começou a fazer almoço e janta e aí foi “virando” coordenadora. “No começo, não saía muito bom, porque não era acostumada a cozinhar pra tanta gente, mas fui aprendendo. Meu esposo até brincou quando comeu o primeiro arroz que eu fiz: isso aí não tá muito bom não, neguinha”.

Débora lembra da saída da ocupação na Avenida São João, 340. “Quando fechou a São João, a Edinalva me colocou aqui. No começo era meio estranho. Eu passei a ser coordenadora, com muito mais responsabilidade lá”.Quando chegou à coordenação, Débora fez projetos e tentou dar uma vida melhor pros moradores. “As famílias agradeceram muito”.

A coordenadora ficou oito meses na São João. “Quando tava ficando bom, teve a reintegração. Eu estava lá e chegou o rapaz com um papel. Nem sabia o que era”, comenta Débora em relação a sua experiência ainda recente.

Os filhos e a luta

Os filhos são parte essencial na luta de Débora e o principal motivo dela estar nas ocupações ainda. “Eu converso com eles, mas acho que não preciso falar muito pra eles. Quando falo que vai ter ocupação, eles são os primeiros a se arrumarem”. No entanto, um dos problemas que tem que trabalhar com as crianças é o preconceito sofrido pelos moradores da ocupação. “O único preconceito que sofre é na escola. Se falar que mora em ocupação, geralmente eles apontam. Eu falo pra eles que não é bom falar que mora em ocupação. Eu não vou estar perto deles a todo momento, não sei o que pode acontecer”.

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