Teu presente uma lição: a luta continua aos 64 anos em uma ocupação

“Essa gente que eu não queria nem ver, essa gente que eu abominava, foi essa gente que me abraçou, que trocou minhas fraldas, que cuidou de mim”

“Agora eu sou cidadã, tenho atestado de residência, tenho um endereço, posso arrumar um emprego”, diz Nilda dos Santos, 64 anos, entregando o documento autenticado em minhas mãos. Há dois anos morando em ocupação, vive o outro lado da vida.  Uma face que não esperava conhecer.

Nordestina, de Recife, veio para São Paulo estudar. Formou-se enfermeira na Escola Paulista com uma bolsa de 100% e uma rotina apertada: “Eu trabalhava no Hospital São Paulo de noite para pagar a bolsa de dia. Trabalhava 20 horas por dia. Só no basquete de UTI, só salvando vidas”, lembra.

Centro Ocupado

Foi nessa época que conheceu seu marido Luiz Mário, militar do Exército Brasileiro. Com ele teve três filhos: dois engenheiros e um fisioterapeuta. Foram eles quem deram suporte à mãe quando o pai faleceu. Com o dinheiro da pensão, os três montaram uma pousada em Búzios, no Rio de Janeiro.

“Quando isso tudo aconteceu, que o meu marido morreu em 1983, eu peguei uma grana, fiquei rica e virei empresária. Quem botou na minha cabeça, naquela época, que esse país era turismo foi meu filho mais velho, Luiz Antônio. Aí fomos embora para o Rio, comprar um terreno“, conta ela.

Saiba mais sobre a ocupação na Avenida Rio Branco, 53

Toda essa fase durou cerca de 10 anos, entre 1989 e 1998.  Depois disso, a vida desandou de vez. Nilda perdeu os três filhos de uma única vez, num acidente de carro. Luiz Antônio, 31 anos, Paulo Marcos, 29 anos, e Nilo José, 26 anos, viajavam até São Paulo para fazer compras e abastecer a dispensa da Pousada.  O veículo em que estavam capotou na via Dutra, altura de Nova Iguaçu.

Dois meses depois, a recifense de Olinda sofreu um aneurisma e perdeu tudo: “Eu sempre dominei o mundo. Achava que dominava, né? E de uma hora pra outra eu me vi sozinha e com vergonha de voltar pra Recife. Me vi sozinha, sem ter pra quem apelar”, diz já chorando.

Com o pouco dinheiro que tinha sobrado do fundo de garantia, tentou se inscrever em diversos programas de moradia, mas não obteve sucesso. Foi quando conheceu a FLM (Frente de Luta por Moradia) e foi amparada pelo movimento.

Centro Ocupado

Do outro lado

Sozinha e com vergonha da família, mostrou-se carente e grata ao movimento. Durante muito tempo dependeu da ajuda dos outros moradores e, também por isso, conseguiu vencer o preconceito.  Lixo urbano. Era assim que ela classificava os moradores sem-teto antes de entrar para o movimento.

“Hoje é como se eu estivesse passando pela prova, sabe? Essa gente que eu não queria ver. Essa gente que eu abominava. Foi essa mesma gente que me abraçou, que trocou minhas fraldas nessa cama, que me deu banho, que cuidou de mim, que nunca me roubou”, confessa a enfermeira.

Foi na ocupação que ela aprendeu a conviver com todo e qualquer tipo de diferença e por isso, hoje, considera-se feliz: “Aqui, hoje, eu sou feliz. Eu sei o que é cidadania, sei o que é diferença. Conviver com homossexualismo, GLBT… pelo menos, hoje, eu tolero. Antes eu não queria nem ver, por que pra mim era lixo humano. Aprendizado depois de velha”, diz.

São Jorge Guerreiro

Como se não bastasse tudo o que passou até chegar à ocupação, três meses depois de instalada na Rua Rio Branco, 53, Nilda enfrentou outro problema de saúde. Dessa vez, teve que vencer um enfisema pulmonar.

E para não cair em depressão, apegou-se a paixão pelo esporte e pelo time do coração: “Se eu não me apegasse ao Corinthians e fizesse dele minha razão de viver, eu não estaria viva. Eu me vi doente, em cima de uma cama, usando fralda. A única coisa que eu tinha para conseguir viver era o Corinthians. Eram os jogadores que me davam alegria, assistindo por essa televisão”, confidencia.

A paixão pelo clube é evidente. O seu apartamento é todo decorado com coisas do time alvinegro: jogo de xícaras e pratos, mural, faixas e quadros. Seu maior ídolo é Ronaldo e como toda corintiana tem a sua superstição: “No dia em que o Corinthians joga, eu rezo: ‘São Jorge guerreiro, vamos derrubar mais um dragão’. Eu me agarrei ao Corinthians e faço dele a minha vida”, sentencia antes de pousar para a foto.

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