Choro e batalha marcam a mulher peruana

O português arranhado na fronteira com o espanhol não nega a raiz da coordenadora da ocupação Rio Branco, 53. Fanny Gisela Ascencio, 43 anos, é peruana e vive no local há cerca de dois anos. Conta que chegou com toda a mobília e alguns moradores até se assustaram, mas não tinha para onde ir. “Trouxe os três filhos, geladeira. Fui uma das primeiras a entrar com todas as coisas”.

Onde a história começa

Após ter ido em algumas reuniões da FLM, decidiu participar da ocupação, já que não havia mais solução. A depiladora conta que por conhecer Jô Marina, uma das coordenadoras do movimento, e ter falado com ela anteriormente, conseguiu um espaço no piso térreo logo no início da ocupação. “Por ser estrangeira, sempre sofria discriminação. Ficava meio cismada e falava pouco, mas Jô Marina sempre me apoiou”. Fanny conta que pagava R$ 800 de aluguel e morava em um kitnet.

Centro Ocupado

A vida na ocupação foi virando rotina e a mãe de dois filhos foi se acostumando à nova moradia. “Aprendi a gostar muito daqui. Tenho esperança de que algum dia tenha minha moradia própria. A gente colocou câmeras, portão elétrico. Para mim é muito bom”. A vontade de Fanny é transmitir uma parte do que aprendeu com a “maestra”. “Pelo menos quero ajudar um pouco. É uma família”.

Saiba mais sobre a ocupação na Avenida Rio Branco, 53

Outro problema enfrentado pelos moradores de ocupações muitas vezes é o preconceito no convívio externo à moradia. “Muitas vezes pensam que em ocupações moram ladrões, vagabundos. Eu já ouvi muitas vezes essa conversa em outros lugares”. No entanto, algumas vezes esse fato também ocorre dentro do lugar. “Quantas vezes diziam que não poderia ficar na portaria porque sou estrangeira. Sempre há preconceito. Somos seres humanos iguais. Por alguns motivos, não temos estudos, mas somos trabalhadores”.

A chegada a São Paulo

Com dinheiro emprestado pela mãe, a jovem decidiu vir para a capital paulista. Deixou os filhos pequenos no Peru e veio em busca de melhorias financeiras. “O lugar onde morava, no interior do país, era muito pobre. Eles queriam alguma coisa e não tinha”, lembra o começo dessa batalha com o ímpeto de melhorar sua vida e a dos filhos.

Trabalhou por dois anos em casa de família, coisa que nunca tinha feito antes. Fanny lembra que era uma casa de judeus e que sofria e chorava muito. “Se fosse para o Peru, teria que devolver o dinheiro da passagem. Isso me manteve firme”. Ela demorou seis anos para conseguir guardar dinheiro suficiente para trazer os filhos. Morou em cortiços na Barão de Piracicaba quase quatro anos. “Quando eu morava nesses lugares, só pagava aluguel e não dava para planejar nada. Conhecendo o movimento, melhorou minha vida e meu futuro”.

Em relação aos filhos e como aceitaram a vida na ocupação, Fanny lembra que eles se adaptaram e já buscam sua própria moradia. Atualmente, apensas a filha mais nova mora em seu apartamento. “Eu vivo por ela. Os três já têm mulher, são casados. Mas a mais nova, somos eu e ela”.

Fanny comenta que já havia morado em outro local do movimento. “Penso que temos que lutar por isso. Se algum dia Deus quiser, sairemos, mas saberemos conviver de outro modo”. Ela diz que desistiu da ocupação anterior, pois tinha que subir escadas e muitas pessoas fumavam. “Atenderam todo mundo, mas perdi minha chance. Se não é para mim, então desisti. Preferi pagar aluguel a morar lá”, lembra a coordenadora.

Estranha no ninho

Fanny considera ser estrangeira no Brasil algo complicado, mas que no final deu certo. “Todo estrangeiro quando chega por aqui, maioria entra como turista e tem um limite de 90 dias para ficar por aqui. Se passar, tem que pagar uma multa”. Quando teve anistia, 1998, conseguiu carteira registrada, apesar de nunca tê-la usado. “Agora está bem mais restrito. Quando trouxe meus filhos, vieram com passaporte”. Em relação aos filhos, Fanny não gosta quando falam mal de estrangeiros ou demosntram algum preconceito em relação a eles.

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