Uma despedida a portas fechadas

Piauí acendia as velas no canto do corredor como um presente para o japonês (proprietário do prédio) enquanto em outro andar alguns moradores separavam materiais para fazer barricadas antes de raiar o dia. A “macumba” do morador do segundo andar era um recado ao dono do imóvel, que não sairia ileso daquela reintegração, mesmo que fosse espiritualmente (acreditando ou não em tal crença). Mal sabia o japonês que no outro dia de manhã, nem policiais, nem repórteres reconheceriam tal artimanha de fé.

Centro Ocupado

A macumba de Piauí foi o último recado do morador ao dono do imóvel

Durmo sob o mesmo teto que foi quarto, cozinha, estúdio, sala de imprensa e espaço de convivência com os moradores. No começo da noite, ajudo a descer o sofá emprestado pela coordenadora para levar para outra ocupação.

O dia nasce com o mesmo sentimento de preocupação da noite anterior. Do lado de fora da ocupação, policiais de prontidão já fazem um bloqueio na Rua Xavier de Toledo. Os moradores começam a se mobilizar para formar barricadas entre os corredores, deixando como único acesso a própria escada do prédio.

Apesar de todo o esforço dos moradores em preparar a barricada principal, um acordo entre os movimentos que coordenavam o prédio, fez com que a barreira fosse desfeita e os ocupantes saíssem pela porta principal com o sentimento de luta completa. Não tinha como resistir. Seria um risco às poucas pessoas que estavam dentro do prédio, comparado ao número de policiais.

Saiba mais sobre a ocupação na Rua Xavier de Toledo, 150

Muitas delas saíam com uma tristeza estampada no rosto, com a mesma emoção que entraram no prédio e com a mesma dúvida da conquista de uma moradia. Transeuntes criavam histórias e pensavam possibilidades para as pessoas que viviam ali. Apesar de que alguns “bem informados” diziam que os moradores eram aproveitadores que não precisavam de casa. Piauí estava certo ao fazer a macumba se atingisse até os maus pensadores e não somente o dono do imóvel. Oferenda para quem oferecia o despejo a ele e seus vizinhos.

Um grito contido

Os líderes de ambos os movimentos, UAMP e MMPT, estavam na porta do prédio. Houve discussão com o dono do prédio e seu advogado. Os moradores diziam que o dono do imóvel tinha sido preconceituoso por vários momentos durante a vida na ocupação. Luis Wong negava.

O imóvel estava abandonado e os ocupantes tiveram que limpar muito lixo e animais mortos. A reintegração veio como um baque após todo esse cuidado com o local. Fizeram novas instalações, elétricas e hidráulicas, para adaptar o local a uma melhor vida comunitária. Apesar de todo o esforço, a lei e o direito à propriedade prevaleceram sobre outros direitos como moradia e a função social do imóvel, até antes da ocupação, impensável.

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O lar abandonado aos pombos

Os moradores aos poucos descem seus pertences e outros aguardam a empresa contratada para fazer a mudança direcionar para onde irão os móveis. Alguns já haviam levado alguns pertences durante os dias que antecederam a reintegração, principalmente durante o fim de semana.

Geladeiras, sofás, camas e colchões foram saindo pela porta do prédio e, cada vez mais, o sonho de continuar morando no local ia diminuindo. Os moradores, alguns já nem voltaram para dormir no último dia no prédio, outros já tinham ajudado demais nas mudanças sem cobrar pelo transporte e, às vezes, tinha até que tirar dinheiro do próprio bolso pra ajudar a levar os pertences dos vizinhos.

Entre todos, o sentimento comum era o de amizade, além da vizinhança de portas e andares. Muitos nunca haviam participado de uma ocupação e não pensavam em desistir da luta pela moradia digna tão cedo. Outros, já “velhos de guerra”, sabiam como lidar com a situação e como apoiar os mais “novatos”. Alguns desistiram e foram embora, voltaram para a terra de origem. Outros buscaram em outras ocupações a nova chance de lutar por um teto próprio.

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