Apenas problemas na volta à cidade natal

Pedro Sérgio da Silva, 59 anos, é o pai de duas filhas e de um menino. Em Juazeiro do Norte (BA), o professor teve problemas com o tratamento da mulher, que já apresentava um quadro clínico mais complicado. “Eles queriam amputar a perna dela e sei que tem drenagem pra isso. Ainda não consegui esse tipo de tratamento por aqui, só um paliativo”.

Centro Ocupado

Infelizmente, segundo o paulistano que se mudou cedo para a cidade nordestina, sua mulher deve voltar para a cadeira de rodas. “Ela está obesa, com 123 kg. Ela que cuida minha neta. Viemos de uma cidade com condições de vida diferente daqui. Sou paulistano, mas fui criado no Nordeste, região que me deu muita coisa de bom”.

A chegada em São Paulo

Pedro recebeu uma pessoa em sua casa de Juazeiro por 4 anos e havia combinado que ficaria na casa dela em São Paulo. Porém, ao chegar aqui, não tinha como recebê-los. “Procurei o CRAS e o CREA, só que não tinham verba. Nos colocaram em um abrigo. Separaram minha família. Minha esposa e minhas filhas foram pra um abrigo feminino. Eu e meu filho fomos para outro”, lembra o início do retorno a São Paulo.

Foram 4 meses nessa correria até o pai, único a trabalhar na casa,  arrumar emprego e um lugar para morar. O local ficava Cidade Tiradentes. Então, Tobias (representante da Vai-Vai) conversou com Pedro e disse que teria um lugar para onde eles poderiam ir. “Quando cheguei com as coisas, descobri que era uma ocupação, aí não tinha como voltar”, lembra o ex-morador do movimento.

Saiba mais sobre a ocupação na Rua Xavier de Toledo, 150

Pedro viu a neta nascer nessa ocupação. A esposa e a filha ficaram no prédio, enquanto ele levava as doações de comida ao prédio. “Fiquei impedido de entrar. Como o padre entregava as doações pra mim, era uma questão minha, deixei de levar as doações ao movimento”.

Segundo o ex-professor, começaram a aproveitar a inocência das filhas na ocupação até que ele teve de intervir. Pedro diz que foi acordado que continuaria a parceria social com a Secretaria de Habitação. Ele ainda não viu esse acordo ser consolidado. No meio tempo em que levava as doações à ocupação, teve a filha mais nova recolhida pelo Conselho Tutelar irregularmente de dentro do prédio ocupado.

O carregador de móveis pausa. Começa uma história que não imaginou e não queria que acontecesse em são Paulo. Sua filha foi abusada por um membro da coordenação no prédio ocupado e , de acordo com Pedro, quem foi punida foi a vítima, não o suspeito. “Chamaram minhas filhas e pediram os pertences. Levaram ela de carro”. Saber onde a filha está não ajuda nessas horas. Após um mês, Pedro teve acesso ao local e a visitas, porém apenas de 15 em 15 dias pode vê-la. “Nós queremos ir embora, mas não podemos sair”.

A história vivida na pele

As mãos do ex-professor tremem e a conversa tem um tom mais triste. Afastado pelo INSS e sem receber seu salário desde agosto, Pedro tenta arrumar uma saída. Ajuda com as mudanças dos moradores da ocupação na Xavier de Toledo e ainda ajuda em outros carregamentos, mas a vontade do entrevistado é voltar ao cargo de funcionários da empresa (telemarketing da Vivo), apesar do corpo clínico não permitir seu retorno. Sua idade parece ser a base desse problema.

A neta exige compras e cuidados. Pedro tenta levar um lenço umidecido, fraldas e comida para a casa, mas diz que normalmente o que dá pra comprar é muito pouco. “Tenho uma neta pra sustentar. Essa precisa que eu leve as coisas. Compro o que der pra comprar”. Além dessa batalha, o paulistano ainda luta para ajudar sua mulher a superar a doença e “reviver”, já que “a esposa perdeu a vontade de fazer as coisas”.

“Hoje eu saí da minha casa e deixei exatamente o que comer. Deixei o leite e duas, três fraldas. A hora que eu acabar de trabalhar, ainda vou comprar os mantimentos. A minha diária de R$ 50 e deixo tudo no mercado.  O que eu trouxe hoje, vai dar pra hoje e amanhã?”. Esse é um resumo diário da luta do pai de família, em um momento de crise em São Paulo. Seu sonho de realização da melhora da saúde da esposa não foi concretizado e agora tem que lidar com os problemas apresentados na cidade, como criminalidade, preconceito, falta de emprego aos mais velhos e a moradia. “Aqui não consigo trabalho tanto pela idade como pela formação (graduação em Letras e Matemática).”

Um sentimento fica dessa experiência para Pedro. “Não devia ter vindo pra São Paulo”. Com uma família dependente para quase tudo, financeira e emocionalmente, ele tenta levar a vida até resolver a situação da filha mais nova. Sem dinheiro, não tem como alugar um imóvel mais próximo ao centro. Não há fuga ou situação pensada para sair desse quadro. Pedro virou um andarilho no centro para ajudar em mudanças ou em qualquer outro “bico”.

O homem de 59 anos quer apenas paz. Lembra da vida que teve junto aos pais, sem nenhum “sofrimento desses”. “Não sofri nada disso com meus pais, e estou fazendo minha família passar por isso”. Pedro entrende que este é o risco que se corre ao ter que lidar com saúde.

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