Não só de escadas e apartamentos é feita a ocupação

Getúlio carregava o caminhão com as mudanças de alguns moradores da ocupação quando cheguei à porta do edifício na Rua Xavier de Toledo, 150. Wagner, coordenador do MMPT na ocupação me recepciona e subimos para o aposento que seria dormitório até o dia da reintegração, na segunda-feira.

Em um quarto que mais parecia de hotel dos anos 90, com toda classe e limpeza, nos acomodamos e fomos tirando o material para conhecer melhor o prédio e escutar e viver todas as histórias dos moradores que viviam naquele local.

Centro Ocupado

No corredor, logo após deixar as câmeras, computador e bolsas no aposento, encontramos um dos moradores do prédio desmontando a casa (tirando fios, móveis e até colchão). Getúlio criou os filhos e o mercado de trabalho acabou fazendo com que vivesse de bico, mesmo aos 54 anos e com uma formação bem diversificada. Ele conta a dificuldade de viver na ocupação, apesar de toda a luta, que as necessidades econômicas acabam delegando para esses moradores.

Pedro, colega que auxilia Getúlio na desmontagem do apartamento, lembra os tempos áureos em Juazeiro do Norte, Bahia, onde trabalhava como professor em três colégios (entre eles o colégio de oficiais da cidade) e mostra indignação com a dificuldade de quem vem para São Paulo por motivos de saúde, no caso, sua mulher tem câncer e o baiano de 60 anos veio à cidade em busca de tratamento para ela.

Foram muitas histórias e muita realidade tanto nas conversas, como nos depoimentos colhidos nesses dois dias no prédio. O banho, uma ducha quente, num piso de barro vermelho, um pouco deteriorado pelo próprio proprietário antes dos ocupantes chegarem, lavou o suor de toda uma tarde auxiliando os moradores a carregar geladeira, sofá e móveis. Um arranhão no braço esquerdo deixou a marca da boa vontade em ajudar os moradores a carregar os móveis e a picada de aranha no dia da reintegração podia ser comparada à dor de deixar o local  e a sensação que cada uma daquelas famílias teria quando fosse trancado o portão.

A noite chegou, mais precisamente a madrugada, e os moradores todos deitados e alguns com televisores ligados mostravam suas preferências de programas e histórias. Piauí, morador do segundo andar, escutava o rádio em um volume alto, mais para afastar a tristeza da proeminência da reintegração que para calar a dor de deixar tudo que foi construído ali, desde a porta pintada com todo cuidado até a reforma no banheiro, que acabou virando uma suíte.

Dormir foi até curioso, devido ao cuidado de ambos os coordenadores com nossa estadia e conforto trazido pelo colchão que já estava no quarto quando cheguei ao saco de dormir, para não congelar, caso fizesse muito frio. Acordar então foi mais curioso. A cidade amanheceu ensolarada e o centro da cidade aos domingos era um mix de ciclistas de faixa exclusiva com amantes do reggae em um evento próximo ao Teatro Municipal.

Os talheres cruzados na mesa do bar anunciaram o fim do prato comercial. A escada do metrô Anhangabaú, ao lado do restaurante, parece consolidar a imagem de Castelinho (nome dado por Luzinete, uma das coordenadoras da ocupação). Entro no prédio com o maior cuidado pra não perder chaves ou deixar algum estranho entrar na “rabeira” no local.

Subo e busco equipamentos para registrar algumas mudanças e como estava o ambiente quase vazio, com alguns locais ainda com pertences dos moradores. No meio do caminho, me atento à situação que se encontra o banheiro. Muito melhor do que foi encontrado, mas “dado” de presente ao proprietário como uma resposta à reintegração. Vários locais do prédio haviam sido reformados e muitos moradores demonstravam a tristeza com a saída do prédio.

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Eles conversavam e planejavam para onde ir e como ir. Com Seu Getúlio, o problema do caminhão de mudanças era solucionado com uma Kombi adaptada para caminhonete, ao estilo setentista brasileiro, com as grades em madeira e com bicos de ferro que fechavam o espaço. Getúlio foi quase um pai para os moradores mais desesperados.

Pego na ponta do colchão e Piauí na dianteira. Vamos a pé da ocupação na Xavier de Toledo até a Capitão Salomão. No caminho, ele explica a vida dura que leva com  um trabalho até bem remunerado, porém, que não alcança deixá-lo em uma vida tranquila, que inclua boa moradia e boa alimentação. Parte da luta.

Voltamos e com a proeminência da reintegração, as feições mudam. O último descanso une tensão e saudosismo. Tudo já está desmontado no prédio. A saudosa maloca já estava praticamente “desfigurada”. Em um dos apartamentos, de um dos coordenadores, ao ir tomar banho, tive a experiência de ver um apartamento vazio, com um quadro que lembrava Frida Kahlo na parede, talvez até do antigo proprietário. Pensar que ali viveu uma família por quase um ano e naqueles poucos segundos parece um cartão de boas-vindas ao futuro do apartamento, sem móveis, sem vida.

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