De cabeça erguida: sem medo da vida, sem medo da luta

“Eu tenho 50 anos. Sou auxiliar técnica de enfermagem, estou fazendo uma faculdade de serviço social e eu nunca tive uma moradia digna, desde que me entendo por gente”. Esse é o resumo da vida de Maria de Fátima Sales Simões.

Natural de Salvador, Bahia, já passou por muitos lugares durante a sua jornada. Desde idas e vindas à terra natal, abrigos, casas de parentes e até mesmo a vida na rua. Há dois anos, entretanto, estabeleceu residência fixa no prédio da Avenida São João, 288.

Centro Ocupado

Quando questionada sobre o início da vida de ocupante, explica que as dificuldades vão além do alto valor do aluguel. Mãe de um filho com necessidades especiais, não consegue trabalhar em período integral.

“Também por causa de aluguel e porque tenho filhos especiais. Não tenho quem cuide dele, eu tenho que fazer isso, não posso trabalhar. Não posso ganhar o salário, né? E um salário não paga um aluguel hoje em dia. Aliás, eu acho que nunca pagou. Se for pagar um aluguel, o salário vai ficar todo lá. Então fica muito difícil não apelar pra esse tipo de coisa”, confidencia.

Ainda assim, não deixou se abater pelos percalços da vida. Aos poucos foi procurando melhorar sua vida não só materialmente, mas também intelectualmente. Hoje, além da faculdade de serviço social, faz um curso de inglês.

A política do povo

Durante a entrevista, Maria de Fátima aprofunda a discussão política e expõe o paradoxo existente na cidade de São Paulo: muita gente sem casa e muita casa sem gente.

 “A situação se torna cada vez mais difícil para o cidadão brasileiro de baixa renda. O povão aumenta todo dia e não tem pra onde correr. É todo mundo apertado, numa cidade tumultuada, que já está apertada também. É cabível ocupar o que está desocupado, se deteriorando, sem ninguém pra resolver a questão”, diz.

E vai além, deixando claro que não existe alternativa a não ser ocupar: “Sabemos que não é o correto, mas não temos outra solução. Correr pra onde? Pro aluguel? Pagar com o quê? Com um salário mínimo? Por mais que a gente estude, trabalhe, se forme, a gente não consegue mudar, melhorar as coisas”.

O sonho não pode morrer

Apesar do pessimismo no âmbito mais geral, a auxiliar de enfermagem acredita na luta e espera ansiosa pela chave do seu apartamento próprio.  Para ela, a moradia própria é a raiz de todas as coisas.  É uma das coisas mais importantes para o cidadão.

“Objetivo é ter minha casa. Quem tem casa, tem família constituída. Quem não tem casa, não tem nem raízes. Sem um comprovante de residência, você não consegue fazer nada. Você tem que ter um comprovante de residência até para se inscrever numa biblioteca e pegar um livro pra ler. Então, a gente sem uma moradia fixa é como um cidadão sem registro de nascimento. Ele fica sem uma identidade própria”, finaliza.

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