A luta da Mooca para a ocupação

A sogra participa há 20 anos do movimento de moradia. No entanto, o furor do casamento e a situação financeira ainda tranquila (naquela época) fizeram com que Patricia levasse um tempo a aceitar o convite para participar da luta. A coordenadora da ocupação na Avenida São João,288, é nascida na Mooca e por lá viveu até deixar a casa em que vivia de aluguel com o marido.

Era o mandato de Erundina na Prefeitura de São Paulo. Patricia era nova e recém-casada, quando a sogra conseguiu uma moradia no Jardim Santo André, próximo à Favela da Juta. O sistema criado pelo poder municipal na época era a construção por meio de mutirões, que delegavam os dois dias do final de semana por um prazo muito grande para acompanhar a construção das casas. “Ela sempre questionava a gente”.

Centro Ocupado

A Mooca foi a morada de Patricia até as contas não fecharem mais, sendo que o aluguel era um dos principais pontos do débito do casal. “Sempre morei na Mooca. O aluguel já era caríssimo e com o boom imobiliário, você não achava mais casa para alugar”. Além do débito, não tinha como achar casa a um preço acessível e então Patricia decidiu ir morar perto da sogra. “Lá, na Zona Leste, consegui um lugar. Fiquei dois anos e meio lá. Ali eu fui participar das reuniões”, lembra a coordenadora.

Saiba mais sobre a ocupação na Avenida São João, 288

O início da participação no movimento foi no segundo semestre de 2012 em reuniões dos grupos de base. “Três meses depois, eles marcaram as ocupações, na semana das eleições”, lembra Patricia. Primeiramente, foi morar em uma outra ocupação na Avenida São João, que foi reintegrada uma semana depois. “Fiquei revezando com meus filhos no começo. A [ocupação da] 288 já existia. Pedi para a Antonia me arrumar um quarto aqui e ela me explicou mais ou menos como funcionava o movimento. “Eu não tinha muito noção de como era. Os coordenadores foram saindo e ela me chamou pra ser coordenadora do prédio”.

A ocupação

Uma porta de ferro e pesada de 4m de altura poderia ser um grande obstáculo para a ocupação do imóvel. A ideia foi simples, buscar outras entradas. Em uma rua sem saída, na parte de trás do local, havia uma porta de madeira, que além de chamar menos atenção, poderia ser mais fácil de abrir. E assim foi.

Com a reforma do prédio, Patricia diz que ali será uma saída de emergência para os moradores, com uma barra de ferro que permita a evasão mais rápida. “Já estamos resolvendo a parte elétrica e a saída de emergência. A gente vai organizar as barras. Arrumamos o prédio também porque a defesa civil está vistoriando as ocupações”.

O prédio teve algumas reformas pelo antigo proprietário, percebido nos itens de segurança como os alarmes de incêndio. Apesar desse tal “cuidado”, o local estava muito sujo e muito entulho foi removido do prédio. “Uma das mudanças que fizemos foi instalar uma cozinha e uma lavanderia em cada andar”.

Um dos exemplos de descaso do proprietário é o próprio encanamento de ferro, muito antigo para os modelos atuais de construção. Os moradores estão reformando as partes que estão degradadas, substituindo por canos de plástico (PVC). Outra mudança é a distribuição de quartos, adaptados dos espaços do local. “O que dá pra fazer quarto, a gente faz. O que não, usa como almoxarifado, para guardar alguma coisa”.

Patricia também criou alguns espaços culturais no local, como sala de jogos e espaço para as crianças. “Montei uma brinquedoteca. As crianças não têm o costume de ter algo pra elas. Foi onde surgiu a ideia de montar uma biblioteca. Em sistema de mutirão, arrumamos o espaço. Dei meu toque, decorei”. Os moradores ajudam no que sabem, como alguns eletricistas, técnicos de segurança.”A gente quer melhorar, não estragar o prédio”.

Reflexos

A luta é complicada e tem suas restrições. Algumas pessoas que decidem deixar as ocupações, por motivos variados (mudança pro aluguel, cansaço, volta pra cidade de origem, etc), não são aceitas de volta naquela ocupação, como se houvessem abandonado o barco. “Tenho gente que já saiu da ocupação. Foi morar de aluguel ali fora e voltou pedindo pra morar aqui novamente”.

Um exemplo citado por Patricia é o custo da moradia no centro. “Um cômodo pequeno custa R$ 500 aqui no centro. O que eu gasto aqui na ocupação é exatamente o que eu posso gastar. Se eu fosse pagar aluguel, já não poderia”.

Uma das dificuldades de liderar a luta é que nem todos são tão participativos. “Nem todo mundo é de luta. São famílias preocupadas em resolver seus problemas imediatos”. O movimento tem uma contribuição dos moradores para realizar a manutenção do imóvel. “Os custos vêm da contribuição dos moradores. Por exemplo, a portaria tem um custo, porque uma pessoa fica lá por grande parte do dia. Existe uma estrutura de condomínio, pelo regulamento, mas algumas famílias ainda têm essa sensação de individualismo”.

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