Prédio da Mauá é o primeiro a ser decretado como de interesse social

Depois de 6 anos e muita luta, o prefeito Fernando Haddad assinou o documento

Sua localização é privilegiada. No bairro da Luz, ao lado da estação do trem e do metrô. Sua história começa no ano de 2007, mais precisamente no mês de março. No dia 25, o Movimento Sem Teto do Centro (MSTC), o Movimento de Moradia da Região do Centro (MMRC) e o Sem Tetos do Centro de São Paulo (STCSP) se organizaram e iniciaram um novo capítulo na história do prédio número 340 da Rua Mauá.

Segundo Ivanete Araújo, 40, coordenadora do prédio e do MSTC, a ideia partiu dela e aconteceu pela necessidade de ter um lugar para morar. Já que depois de algum tempo não houve a renovação do Bolsa Família, programa que integra o Plano Brasil sem Miséria, e várias famílias retrocederam ao zero. Houve, então, uma assembleia e ficou decidido que o prédio seria ocupado.

Centro Ocupado
“De início, os outros dois movimentos eram apenas para apoiar, mas depois, os próprios movimentos tinham pessoas que também precisavam. A partir do momento em que ocupamos, nos organizamos, colocamos um coordenador por andar, tiramos todo o lixo existente. Limpamos e demos espaço à vida”, explica Nete, como é conhecida entre os moradores.

No terceiro ano de ocupação, entretanto, descobriu-se que o prédio fazia parte da área contemplada pelo projeto Nova Luz, da Prefeitura de São Paulo, que tinha como objetivo demolir vários imóveis da região para criar um espaço de entretenimento ligando a Rua Mauá à Rua Casper Líbero.

E mais uma vez, os coordenadores do movimento foram em busca de uma melhor solução para o caso. Conseguiram eleger um representante no conselho gestor que discutia as leis do projeto. A ideia era dissuadi-los da ideia de demolição, visto que o prédio era um excelente imóvel para habitações sociais. Para isso, “contratamos um arquiteto, fizemos um estudo de viabilidade técnico e econômico, fomos para Brasília, apresentamos para a secretária nacional Inês Magalhães e mostramos que com o aprouch do Governo do Estado era possível construir apartamentos do ‘Minha Casa, Minha Vida”, explica Ivanete.

A estratégia deu certo. Depois de passar pelos três níveis de governo – Legislativo, Judiciário e Executivo – ficou acordado de que o prédio da Mauá não seria demolido. No entanto, o poder público soube que a área estava valorizada e entrou com um pedido de reintegração de posse. Seria mais uma batalha a ser vencida.

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Ainda, segundo a coordenadora do movimento, estava caracterizado no documento que aquela era uma ocupação recente. E como o juiz não quis dar direito de respostas aos ocupantes, vários atos foram feitos na porta da prefeitura.

A questão só foi resolvida de fato, com a eleição do prefeito Fernando Haddad.  “Na época da eleição, levamos nossas ideias para os candidatos. Quem ouviu foi o Haddad, ele disse que era possível de um decreto de interesse social com desapropriação e foi isso que aconteceu”, lembra Nete.

Saiba mais sobre a ocupação na Rua Mauá, 340

No mês de junho, então, depois de um acordo entre prefeitura o proprietário, o prédio foi decretado como de interesse social. O primeiro entre as ocupações do centro da cidade. Com mais uma vitória na conta, outro capítulo começou a ser escrito.

Das ruas para o mundo: quem não luta está morto

Superação e luta. Essa é a palavra que descreve a vida de Ivanete, que além de coordenadora do Movimento Sem Teto do Centro é também conselheira tutelar da criança e do adolescente. Nascida em Guariba, interior de São Paulo, foi boia fria, cortou cana, sacodiu amendoim, catou algodão, capinou e colheu laranja.  Antes de chegar a capital, passou ainda por Ribeirão Preto, onde trabalhou como empregada doméstica.

Chegou à terra da garoa com 22 anos, casada e com três filhas. A esperança era de uma vida melhor.  Entretanto, o marido que tinha sido transferido de Rio Preto para São Paulo foi demitido quando tentou pedir um aumento para o chefe.  A partir daí, foram morar em cortiços, passaram por vários locais até acabarem na rua. E ali, na rua, que conheceu o movimento.

 “Conheci a luta através da minha necessidade, era moradora de rua, morava embaixo do viaduto da baixada do Glicério. Um grupo de pessoas estava fazendo mutirão, um recrutamento para fazer parte de um grupo de moradia”, lembra Nete, que mesmo sem acreditar resolveu participar do movimento.

Sua primeira ocupação aconteceu no dia 5 de outubro de 1998.  O prédio do Hospital Matarazzo, na Rua Itapeva com a Avenida Paulista.  Segundo, a coordenadora o sentimento era dúbio, estranho e necessário. “Eu estava saindo de uma vida sem privacidade e estava tendo uma oportunidade de ter uma porta e uma janela”, em suas próprias palavras.

Aos poucos, foi conhecendo melhor o movimento e entendendo que ela não era a única necessitada, que outras pessoas também viviam em situação semelhante ou pior.  Engajou-se cada vez mais, participou ativamente dos grupos e foi escolhida como coordenadora do movimento.

Por causa dessa posição, viajou por diversos países europeus, a fim de mostrar para o mundo a realidade do Brasil. Quando questionada sobre seu lema de vida não hesita na resposta: “Quem não luta tá morto. A pior luta é aquela que não se faz”, finaliza enfática.

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