Tal mãe, tal filha

A história de Fernanda Abreu da Silva, 30, nas ocupações não é recente. Tudo começou na ocupação da Avenida Prestes Maia, em 2002, onde passou quatro anos e meio de sua vida. Para participar do movimento, no entanto, foi necessário antes um convite de uma amiga da família à sua mãe. Depois de 20 anos pagando aluguel no Jardim Miriam, mãe e filha resolveram participar da luta.

Quando deixou a Prestes Maia, Fernanda foi morar na Avenida 9 de Julho, enquanto recebia o benefício do bolsa-aluguel. Felizmente, recebeu uma carta de crédito e pode comprar um apartamento na Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, residência atual da educadora que confessa ter se ausentado do movimento a partir de então.

Centro Ocupado

As coisas mudaram quando no último ano, a Jomarina, uma das coordenadoras da Frente de Luta por Moradia (FLM), convidou-a para ajudar na ocupação e coordenação do prédio na José Bonifácio, 237. “Aceitei por ser uma oportunidade de me aproximar da minha mãe. A vida social dela não existe, ela está envolvida com o movimento de domingo a domingo. Estou prestes a completar um ano na coordenação dessa ocupação e estarei aqui enquanto houver gente necessitando de moradia”, completa.

Fernanda acredita que o movimento mudou a sua vida completamente: “Aprendi a ser comunicativa, hoje consigo participar de reuniões e ministrar palestras. Além disso, deixei a zona Sul e pude ter noção real do que é o Centro de São Paulo”. Além de sua mãe, outros membros da família a acompanham na luta, como o primo Leonardo, coordenador na Avenida Ipiranga e o irmão Fábio, que auxilia na Rua Caetano Pinto.

Saiba mais sobre a ocupação da Rua José Bonifácio, 237

Entretanto, a aceitação não foi assim tão fácil no âmbito familiar. “Tenho duas tias que sempre criticaram a nossa escolha, que nunca entenderam o que era uma ocupação. Em contra partida, uma outra tia que sofria de depressão entrou para o movimento e desde então podemos considerá-la outra pessoa”, conta.

Fernanda sempre quis fazer matemática, mas enveredou pelo lado social quando adquiriu consciência de que as pessoas precisam de orientação. Depois de dez anos sem estudar, voltou para a faculdade. “Trabalho em um abrigo de crianças e adolescentes e não diferencio muito a minha atuação de fora com a de dentro do movimento, ambas são trabalhos sociais”, explica.

No abrigo, ela lida com crianças abandonadas ou que saíram de casa por vontade própria. Tentando passar lições sobre cidadania, a educadora afirma sempre levar experiências de um âmbito para o outro. “Também indiquei a mãe de uma dessas crianças para a ocupação, mas ela acabou não se adaptando e teve que deixar a moradia”, revela.

Centro Ocupado

“Tive a oportunidade de mudar para cá, mas é difícil conciliar quando se mora em outro lugar. Acabo dividindo o meu tempo entre as duas casas e, enquanto isso, o meu filho de nove anos vive nessa indecisão, sempre mudando de colégio”, lamenta Fernanda, para quem foi muito difícil viver longe da mãe. “Fico feliz por ela estar bem e feliz por aqui, com sua moradia e um emprego bom”, completa.

A dica de Fernanda para os jovens é que tentem entender e conhecer a razão do movimento antes de julgarem suas mães por embarcarem nessa luta. “Quais foram os motivos que a fizeram sair de uma casa com banheiro e chuveiro só para vocês, para morarem em uma ocupação? Busquem saber. Aqui os jovens estão perdendo um pouco da essência do trabalho em grupo. Era mais fácil lidar com eles quando esse espírito estava aceso”, finaliza.

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